terça-feira, 13 de junho de 2017

PRIMEIROS ANOS DA FAMÍLIA SIMON NO BRASIL


 


Chegada de Mathias e família ao lote demarcado
 Pintor: Círio Simon
Pouco sabemos dos primeiros anos de trabalho da família Simon na Capela do Rosário, no interior de São José do Hortêncio. Depois de chegar a São Leopoldo e residirem na Feitoria Velha, que abrigava os imigrantes alemães até suas terras serem demarcadas, a família de Mathias viajou, ou de carroção pelas picadas, ou de barco pelo rio Cadeia, e estabeleceu-se no lote demarcado, situado perto do Rio Cadeia, naquela época navegável. Hoje localiza-se quase em frente à Capela do Rosário, a 8 km de São José do Hortêncio. Foram anos muito difíceis, pois Mathias teve que, primeiramente, construir uma cabana, coberta com palmeiras para o abrigo da chuva, do frio e do vento, derrubar a floresta, fazer o primeiro plantio, esperar a primeira colheita, caçar animais para alimentar os filhos e enfrentar todas as dificuldades e perigos. Na época, reinava um espírito de solidariedade muito profundo, onde um colono ajudava o outro, em forma de mutirão.

Moinho (ao meio) construído por Mathias ao lado da casa.


Com 40 anos de idade e com seis filhos, teve pouco ajuda deles, pois todos eram crianças: Helena, a mais velha tinha 13 anos, Bárbara, 11 anos, Nikolaus, nove anos, Elizabeth, sete anos, Johannes, cinco anos e Catharina com dois anos. Aqui no Brasil, Mathias teve mais quatro filhos: Rosa, Miguel, Mathias e Pedro. Contou somente com o auxílio de sua esposa Margarethe.

Pedra mó do moinho de Mathias

Podemos ter uma ideia dos sofrimentos que passaram estes nossos ascendentes, através de uma carta de um vizinho de Mathias, chamado João Kayser, datada de 16 de janeiro de 1831, enviada da Picada do Rio de Cadeia (depois Capela do Rosário), à família que ficou na Alemanha. Kaiser ocupou o lote de número 13, quase às margens do Rio Cadeia. Em alguns trechos da carta, João Kayser narra o dia a dia dos colonos que habitaram aquela região. Disse ele:  "a zona da mata onde moramos pode ser comparada a uma aldeia de primeira ordem na Alemanha. Mas tudo é mata e árvores por todo lado. Cada colônia tem 100 braças de largura e 1.600 braças de comprimento, contendo uma braça sete pés e meio. Nesta picada encontram-se 54 colônias do lado direito e 54 no lado esquerdo, 108, portanto, habitadas até agora. Temos recebido direitinho do Imperador, nossos subsídios e mesadas na importância de um franco (160 réis) por dia durante o primeiro ano e meio franco (80 réis) no segundo ano. Também a ferramenta agrícola e o gado prometidos nos devem fornecer ainda”. Depois ele relata a distância entre as localidades. “ De nossa colônia até a cidade de São Leopoldo são seis horas (a cavalo). De lá a Porto Alegre são mais 16 horas por via fluvial e sete por terra”. 
Mathias procurou juntar-se aos demais colonos e já em 1846 ele aparece como fabriqueiro (da diretoria) da paróquia  de São José do Hortêncio. Isto atesta que ele estava engajado na comunidade católica desde os primeiros anos. Na Alemanha, Mathias era moleiro e aqui se preocupou com a instalação do moinho colonial em suas terras, aproveitando um córrego de água. Fez uma represa e dali construiu um canal, com muros de pedra, numa extensão de mais de 200 metros. Hoje resta somente o término do canal, numa extensão de três a quatro metros. Acredita-se que sua construção foi por volta da década de 1830. Nós conhecemos o pequeno moinho, bem como o canal e a represa, ainda na década de 1980. Em 1991 foi destruído pelos proprietários do lote, restando apenas as duas pedras mó, adquiridas, inteligentemente, pela família de Luiz Paulo Martins, de Novo Hamburgo. As pedras foram levadas para o sítio do Casal Martins. Posteriormente, em 2015, retornaram para a Capela do Rosário, estando hoje em frente à casa dos Simon.

Telhas originais do moinho
Aqui no Brasil, Mathias e Margarethe tiveram mais quatro filhos: Rosa, Miguel, Mathias e Pedro. Os filhos, na medida que iam crescendo, trataram de formar novas famílias. As duas primeiras filhas não casaram. Tinham problemas de saúde. O terceiro filho, Nikolaus somente veio a casar em 1847, com 27 anos. A primeira esposa foi Maria Bach. A segunda esposa foi Catharina Munchen em 1861. Tiveram, no total 15 filhos. A quarta filha foi Elizabethe que casou com José Henz; o quinto filho foi João Simon casado com Maria Werlang; a sexta filha foi Catharina Simon casada com João Pedro Walter; a sétima filha foi Rosa Simon casada com Jacob Martini; o oitavo filho foi Miguel Scherer casado com Joana Scherer; o nono filho foi Mathias Simon (Junior) casado com a primeira esposa denominada Margarida Spaniol em 1859, e a segunda Margarida Genevein; o décimo filho, Pedro  morreu solteiro.


Canal d'agua original do moinho
O casal assistiu a todos os casamentos dos filhos, e sempre participou da paróquia de São José do Hortêncio. Mathias veio a falecer, de ataque cardíaco somente em 1866, com 78 anos. Acredita-se que tenha acompanhado a construção da casa dos Simon, pois sua inauguração em 1868, foi dois após sua morte, conforme atesta no frontispício da casa. Na visita ao filho Mathias Junior, ao atravessar um potreiro, o patriarca caiu morto. A esposa Margarethe somente, faleceu em 1881, com 86 anos.
Destes sete filhos que casaram, originou-se toda a árvore genealógica dos Simon, ou seja os descendentes do mesmo tronco de Mathias.. Estima-se que hoje seus descendentes somam em torno de vinte mil pessoas, no Brasil, Argentina e Paraguai. Para a Argentina, foi Aloisio Simon em 1920, migrando de Bom Princípio (RS) e para o Paraguai, foi Jacob Simon em 1969, migrando da cidade de Planalto (PR).
Na próxima edição, vamos retratar o primeiro encontro com Pedro Emanuel Simon, o iniciador da genealogia dos Simon.
 

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 e residirem na Feitoria Velha, que abrigava os imigrantes alemães até suas terras serem demarcadas, a família de Mathias viajou, ou de carroção pelas picadas, ou de barco pelo rio Cadeia, e estabeleceu-se no lote demarcado, situado perto do Rio Cadeia, naquela época navegável. Hoje localiza-se quase em frente à Capela do Rosário, a 8 km de São José do Hortêncio. Foram anos muito difíceis, pois Mathias teve que, primeiramente, construir uma cabana, coberta com palmeiras para o abrigo da chuva, do frio e do vento, derrubar a floresta, fazer o primeiro plantio, esperar a primeira colheita, caçar animais para alimentar os filhos e enfrentar todas as dificuldades e perigos. Na época, reinava um espírito de solidariedade muito profundo, onde um colono ajudava o outro, em forma de mutirão.
Com 40 anos de idade e com seis filhos, teve pouco ajuda deles, pois todos eram crianças: Helena, a mais velha tinha 13 anos, Bárbara, 11 anos, Nikolaus, nove anos, Elizabeth, sete anos, Johannes, cinco anos e Catharina com dois anos. Aqui no Brasil, Mathias teve mais quatro filhos: Rosa, Miguel, Mathias e Pedro. Contou somente com o auxílio de sua esposa Margarethe.
Podemos ter uma ideia dos sofrimentos que passaram estes nossos ascendentes, através de uma carta de um vizinho de Mathias, chamado João Kayser, datada de 16 de janeiro de 1831, enviada da Picada do Rio de Cadeia (depois Capela do Rosário), à família que ficou na Alemanha. Kaiser ocupou o lote de número 13, quase às margens do Rio Cadeia. Em alguns trechos da carta, João Kayser narra o dia a dia dos colonos que habitaram aquela região. Disse ele: “ a zona da mata onde moramos pode ser comparada a uma aldeia de primeira ordem na Alemanha. Mas tudo é mata e árvores por todo lado. Cada colônia tem 100 braças de largura e 1.600 braças de comprimento, contendo uma braça sete pés e meio. Nesta picada encontram-se 54 colônias do lado direito e 54 no lado esquerdo, 108, portanto, habitadas até agora. Temos recebido direitinho do Imperador, nossos subsídios e mesadas na importância de um franco (160 réis) por dia durante o primeiro ano e meio franco (80 réis) no segundo ano. Também a ferramenta agrícola e o gado prometidos nos devem fornecer ainda”. Depois ele relata a distância entre as localidades. “ De nossa colônia até a cidade de São Leopoldo são seis horas (a cavalo). De lá a Porto Alegre são mais 16 horas por via fluvial e sete por terra”.  Mathias procurou juntar-se aos demais colonos e já em 1846 ele aparece como fabriqueiro (da diretoria) da paróquia  de São José do Hortêncio. Isto atesta que ele estava engajado na comunidade católica desde os primeiros anos. Na Alemanha, Mathias era moleiro e aqui se preocupou com a instalação do moinho colonial em suas terras, aproveitando um córrego de água. Fez uma represa e dali construiu um canal, com muros de pedra, numa extensão de mais de 200 metros. Hoje resta somente o término do canal, numa extensão de três a quatro metros. Acredita-se que sua construção foi por volta da década de 1830. Nós conhecemos o pequeno moinho, bem como o canal e a represa, ainda na década de 1980. Em 1991 foi destruído pelos proprietários do lote, restando apenas as duas pedras mó, adquiridas, inteligentemente, pela família de Luiz Paulo Martins, de Novo Hamburgo. As pedras foram levadas para o sítio do Casal Martins. Posteriormente, em 2015, retornaram para a Capela do Rosário, estando hoje em frente à casa dos Simon.
 
 
 
Aqui no Brasil, Mathias e Margarethe tiveram mais quatro filhos: Rosa, Miguel, Mathias e Pedro. Os filhos, na medida que iam crescendo, trataram de formar novas famílias. As duas primeiras filhas não casaram. Tinham problemas de saúde. O terceiro filho, Nikolaus somente veio a casar em 1847, com 27 anos. A primeira esposa foi Maria Bach. A segunda esposa foi Catharina Munchen em 1861. Tiveram, no total 15 filhos. A quarta filha foi Elizabethe casou com José Henz; o quinto filho foi João Simon casado com Maria Werlang; a sexta filha foi Catharina Simon casada com João Pedro Walter;
a sétima filha foi Rosa Simon casada com Jacob Martini; o oitavo filho foi Miguel Scherer casado com Joana Scherer; o nono filho foi Mathias Simon (Junior) casado com a primeira esposa denominada Margarida Spaniol em 1859, e a segunda Margarida Genevein; o décimo filho, Pedro  morreu solteiro.

O casal assistiu a todos os casamentos dos filhos, e sempre participou da paróquia de São José do Hortêncio. Mathias veio a falecer, de ataque cardíaco somente em 1866 com 78 anos. Acredita-se que tenha acompanhado a construção da casa dos Simon, pois sua inauguração em 1868, foi dois após sua morte, conforme atesta no frontispício da casa. Na visita ao filho Mathias Junior, ao atravessar um potreiro, o patriarca caiu morto. A esposa Margarethe somente, faleceu em 1881, com 86 anos.

 

Destes sete filhos que casaram, originou-se toda a árvore genealógica dos Simon, ou seja os descendentes do mesmo tronco de Mathias.. Estima-se que hoje seus descendentes alcançam em torno de vinte mil pessoas, no Brasil, Argentina e Paraguai. Para a Argentina, foi Aloisio Simon em 1920, migrando de Bom Princípio (RS) e para o Paraguai, foi Jacob Simon em 1969, migrando da cidade de Planalto (PR).

sábado, 10 de junho de 2017

VIAGEM DE MATHIAS SIMON AO BRASIL LEVOU 100 DIAS

               No começo do século 18, em toda a região alemã da Alsácia e Lorena, havia uma intensa propaganda do império brasileiro, convidando as famílias para migrarem para o Brasil. Dom Pedro I, imperador brasileiro havia se casado com a princesa Leopoldina, da Áustria. Leopoldina falava alemão e era motivo  de uma migração maior de alemães. Também a situação econômica da Alemanha contribuía para uma migração, pois muitos alemães passavam muita penúria.
Isto levou a milhares de famílias alemãs a migrarem para o Brasil, a partir de 1824. Atraído por promessas  
pelo seu espírito aventureiro, Mathias Simon, com 40 anos, com sua mulher Margarethe e os seis filhos, reuniu a família, recolheu seus pertences e dirigiu-se, de carroça, de Hermeskeil até o Porto de Bremen, Alemanha. Ali esperaram por alguns meses. No dia 26 de setembro de 1828 a bordo do navio "Olbers", Mathias e sua família despediu-se de sua Alemanha para sempre.  O navio chegou ao Rio de Janeiro a 17 de dezembro de 1828. Foram 83 dias de viagem de navio em alto mar. 
 
 Navio "Olbers" em que viajou Mathias
                Do Rio de Janeiro a Porto Alegre, o navio "Orestes" saiu no dia 24 de janeiro de 1829 e chegou no dia 8 de fevereiro de 1829. Foram 14 dias de viagem pelo litoral brasileiro, entrando por Rio Grande e subindo a Lagoa dos Patos até a capital gaúcha. Dali a São Leopoldo - destino final da viagem - foram mais 16 horas. Portanto, foram quase 100 dias de viagem. Afirmam os historiadores que nenhum membro da família Simon faleceu durante a viagem.
Hermeskeil era cercada de muros
Toda esta aventura está narrada em documentos da época. Vejamos o que diz o historiador Carlos
Igreja de Hermeskeil em 1680
Unsche em carta enviada ao editor do Jornal dos Simon, jornalista Camilo Simon, em 1980: “Quanto ao navio transatlântico que teria levado a família Simon ao Brasil em 1828, o amigo afirma que teria sido o veleiro "Olbers" sem, porém, indicar a fonte. Também Leopoldo Petry indica o mesmo navio no seu livro "São Leopoldo", mas também Petry não indica a fonte.
 
 
 
 
               Graças ao meu material documentário já acumulado para o meu próximo livro: "O quadriênio 1827/30 da Imigração e Colonização Alemã no RS" possuo em fotocópia uma relação elaborada em papel ofício, com carimbo e emblema do Império do Brasil, datada de 12 de agosto de 1828, onde se encontra sob o número corrido 91, o nome de Mathias Simon, na escrita "Mathias Siemon". Esta relação é do Vice-Consulado do Brasil em Bremen e enumeram 152 famílias com 719 pessoas mais 57 avulsos, totalizando 767 passageiros.
             Outro documento datado de 21 de agosto de 1828, também de Bremen (Suplemento do Jornal Bremer Wochentliche Nachrichten) que reza o seguinte: Para o Rio de Janeiro está sendo carregado e será expedido para lá no fim do corrente mês o belo navio bremense Olbers,  do Capitão J.M. Herklots, que está sendo recomendado para carga pesada adicional". Finalmente sabemos pelo livro do colega H. Oberacker "Jorge Antonio von Schaeffer- Criador da Primeira Corrente Emigratória Alemă para o Brasil (Porto Alegre 1975. p. 88/89) que o veleiro "Olbers" partiu com 874 passageiros, em 26 de setembro de 1828 de Bremen e chegou ao Rio de Janeiro em 17 de dezembro de 1828.
Antigo moinho dos Simon, hoje de outro proprietário.
           Do Rio de Janeiro para Porto Alegre, o amigo disse que os Simon teriam viajado no costeiro brasileiro "Orestes" e de fato existe no Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul um aviso do governo (Portaria) assinado no Palácio Imperial do Rio de Janeiro em 24 de janeiro de 1829, conforme o qual a família Simon figura sob o número 14, entre 365 passageiros deste bergantim (69 famílias e 18 solteiros) embarcados em 8 de fevereiro de 1829.
                Mas encontrei em outra folha do mesmo


O mesmo moinho nos dias atuais, com Dom Ercílio Simon visitando o local
Arquivo Histórico de Porto Alegre, a seguinte inscrição posterior: 365 pessoas baldeadas para o iate de Manoel José de Leăo e para a Canhoneira 18 de Outubro para a Colônia de Săo Leopoldo. Albino Ferreira, por ordem do Intendente da Marinha A. Vic. de S. Freia. Porto Alegre, 30 de março de 1829. Em Săo Leopoldo, a família Simon chegou no dia 13 de março de 1829, assim registrada por Hillebrand, primeiro médico e mais tarde, diretor da Colônia Alemã de São Leopoldo. Termino com uma citação de um provérbio alemão: " Tot ist, wer vergessen wird"(Morto é quem é esquecido. Os não esquecidos, portanto, vivem e viverão). Abraços do Carlos Hunsche".
            Na próxima edição, analisaremos os primeiros anos de Mathias e família, em São José do Hortêncio.
                





 
 



 



 
 

 
         


quarta-feira, 7 de junho de 2017

MATHIAS SIMON O PATRIARCA DOS SIMON


              
Chegada da família de Mathias Simon com esposa e seis filhos em São Leopoldo em 1829.
Pintura de Círio Simon


 
          Mathias Simon foi o imigrante alemão que aportou no Brasil em 1829. Aí começa a história da Família Simon, que hoje alcança a mais de 20 mil membros, espalhados pelo Brasil, Argentina, Paraguai e outros países.


              Mathias era filho de Wendel Simon e Catharina Jost. Nasceu a cinco de maio de 1788, na localidade de Hermeskeil, Trier, perto do Rio Mosela, na Alemanha. A família era constituída dos filhos: Johan Jacob, Anna Maria, Mathias, Helene, Benedikt, Nikolaus e Anna. De profissão moleiro, casou com 26 anos, a nove de fevereiro de 1815, com Margarethe Würst, com 19 anos, agricultora e analfabeta.

             Por ocasião da anexação da margem esquerda do Rio Reno pelo império francês, Mathias foi recrutado para o exército de Napoleão Bonaparte, o grande imperador francês, no ano de 1806, servindo o exército por sete anos. Mathias participou das campanhas napoleônicas da Itália, Espanha, Áustria e principalmente da invasão russa por Napoleão Bonaparte, em 1812. Os russos estrategicamente utilizaram o fator inverno, obrigando Napoleão, que estava no Kremlin, a retirar-se, com 100 mil homens por mais de dois mil km. Seu exército era de 600 mil soldados. Foi uma retirada fracassada, pois os que conseguiram escapar somaram 40 mil que chegaram à Alemanha. Posteriormente, em consequencia da retirada, faleceram 32 mil soldados, sobrando apenas oito mil. Mathias foi um dos felizardos. Depois de casar com Margarethe, após sua volta, o casal dedicou-se ao moinho da família. Ali em Hermeskeil tiveram seis filhos: Helena, Bárbara, Nikolaus, Elisabetha, Johannes e Catharina.

              Certidão de casamento
 O Rhein-Hunsrück Archiv, de Simmern, cidade alemã, nos enviou a certidão de Casamento de Mathias e Margarethe, transcrito do Livro do estado Civil das Pessoas, do Registro Civil de Hermekeil, a cidade natal, sob o Nº 23/1815
. “Nº 23 - No ano de mil e oitocentos e quinze a nove de fevereiro, às 8 horas da manhã, apresentaram-se ao funcionário adjunto, na ausência do titular Jacob Lindelfeld, no Cartório do Registro Civil do município de Kermeskeil, no cantão do mesmo nome:
               Mathias Simon, moleiro, nascido e residente no Moinho de Hermekeil, com a idade de 26 anos, conforme certidão de nascimento anexo; filho maior de Wendel Simon, antigo moleiro do mesmo lugar, como afirmaram sob juramento o filho, sua mãe adiante nomeada, e quatro testemunhas nomeados no fim, sendo sua mãe Katharina Jost, viúva, sem profissão, residente no mesmo moinho citado, e
               Margarethe Würst, sem profissão, residente em Waldeweiler onde também nasceu; com a idade de 19 anos, conforme certidão de nascimento anexo, filha de menor de idade de Nicolau Würtz e Margarethe Jost que foram agricultores em Waldeweiler, ambos falecidos, conforme certidão anexa; a qual recebeu autorização para o presente ato, pelo Conselho da família tomada na forma devida pertencente ao Juizado de Paz, da Comarca de Hermerkeil.
                Ele nos solicitam proceder ao solene reconhecimento legal de sua promessa de casamento, já que feitos os proclamas de casamento, dos quais a primeiro foi publicado no dia dezenove do passado mês de janeiro e o segundo no dia cinco do corrente mês, sempre à hora do meio dia. Não foram apresentados impedimentos ou outras objeções em contrário.
              Sendo que nada foi oposto à realização dos esponsais e como também foram feitas as publicações pelo prefeito de Kell, não senda apresentado impedimento conforme o mesmo nos comunica em notificação oficial; visto que os noivos em tudo observaram as normas legais no que concerne à necessidade de consentimento, todas as formalidades prescritas em lei foram cumpridas como consta do que foi dito nós funcionário adjunto do titular do Cartório de Registro Civil do município de Hermerskeil, depois de lidos em voz alta todos os documentos citados e tendo explicado aos noivos os direitos e deveres dos cônjuges, segundo  o teor do Capítulo Sexto do Título Nono do Primeiro Livro do Código do Direito Civil, perguntamos ao jovem Mathias Simon se queria receber por mulher sua noiva Margarethe Würst; da mesma forma, perguntamos à noiva  Margarethe Würst se queria receber por marido seu noivo Mathias Simon; como os dois responderam “ sim” à pergunta, declaramos unidos  como cônjuges, Mathias Simon e Margarethe Würtz.
              E sobre isso, confeccionamos, em original duplo, a presente certidão, na presença de quatro testemunhos. A saber:  Em primeiro lugar, Johannes  Brücner, 22 anos: em segundo lugar, Johannes Dehring, 43 anos; em terceiro lugar, Martim Gerheld, 55 anos, todos agricultores em Hermekeil e que não são parentes; em quarto lugar, Nikolaus Hermesdorf, agricultor em Waldeweiler, 45 anos, parente da jovem esposa.
             Esses testemunhos, depois de leitura em voz alta, assinaram o presente ato, juntamente com o jovem esposo, enquanto a jovem esposa e mãe do esposo declaram não assinar.
             Acontecido em Hermerskeil no dia, mês e ano como acima.
              Joham Dehring, Mathias Simon e Johannes Bruchner. Nicolaus Hermesdorf, Martin Gerheld
             Adjunto do titutar, Samson
             A assinatura de Mathias Simon".

             Comprovação oral
              O historiador e pesquisador da Família, Pedro Emanuel Simon, em 22 de agosto de 1959, assim descreveu uma nota no verso da primeira ficha de Mathias Simon: “ Notas biográficas do meu bisavô Mathias Simon ( Senior). Durante o tempo em que passei na casa de meus pais ouvi, muitas vezes, meu pai Mathias Simon Junior dizer que Mathias Simon (Senior) serviu durante sete anos a Napoleâo Bonaparte. Que tomou parte em 1812, na passagem pelo Berezina na Rússia; que nunca foi ferido, raspando apenas uma bala no couro cabeludo dele, levando alguns cabelos. Numa feita tive eu passar alguns dias na casa de Miguel Scherer, em Lageado, o qual me contou que o tinha conhecido pessoalmente que devido a isso, cismara que ele (meu bisavô) tinha acompanhado Napoleão à Espanha. Pelo ano de 1913 quando eu morava em Arroio da Seca, município de Estrela encontrei ali a senhora, viúva Kehl, sogra de Jacob Gewehr em cuja casa ela passava e onde frequentes vezes estava de visita à senhora. Uma velhinha me contou numa feita que tinha em menina, morado na vizinhança da residência do meu bisavô que ouviu muitas vezes falar a respeito dos seus serviços prestados a Napoleão. Disse mais, que Mathias era muito bonapartista. Textualmente ela disse: “Er hat michs hauf Napoleon kornmeier lasse”.
Eis o que sei a respeito do caso. Sei que os tios de papai, muitas vezes falavam a respeito de Napoleão. Infelizmente até hoje não pude achar alguma nota ou apontamentos a respeito da biografia do bisavô. Porto Alegre 22-8-1958, Pedro Emanuel Simon".
           Mais tarde , Pedro Emanuel Simon acrescentou: “Quando visitei em 27-7-1959 a Nicolau Aloisio Henz, descendente de Mathias Simon Senior, seu pai havia dito que Mathias Simon Senior serviu a Napoleão na guarda pessoal do Imperador”. Como conclusão, temos apenas o testemunho oral de pessoas que conheceram o imigrante alemão, ainda vivo, pois ele morreu em 1868, com 78 anos.
             Devido aos problemas econômicos que os alemães enfrentavam na época, e à propaganda do governo imperial brasileiro arrecadando migrantes, Mathias resolveu migrar para o Brasil. Essa decisão mudaria sua vida e a de todos nós seus descendentes.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os miseráveis de Fidel existem?

Conta-se que quando a Madre de Calcutá foi recebida pelo Comandante Fidel Castro, a religiosa perguntou se em Cuba havia pobres. Imediatamente Fidel respondeu que não. Uma bela mentira que na viagem que fiz ao interior de Cuba ficou confirmado que em Cuba, apesar de toda a propaganda em favor do paraíso do Caribe, existem sim milhares de pobres, que vivem em cortiços ou na periferia das cidades. Um exemplo está em Havana, no bairro La Víbora, bem como na periferia de cidades como Holgin, Santa Clara, Manzanillo e Santiago.
Pantoja costurando o tênis

Na verdade, alguns milhares são miseráveis, pois a maioria das famílias são pobres, batalhando para sobreviver. Em Cuba ninguém passa fome, pois o governo instituiu a libreta, onde são adquiridos alimentos a preços subsidiados, que duram pelo menos 13 a 14 dias por mês.
Caminhando por uma praça em frente à Paróquia de La Pastora, em Santa Clara, deparei com um homem costurando um par de tênis. Achei uma atitude insólita e acheguei-me a ele. Chama-se Henrique Pantoja, um sem-teto que vive nas ruas, catando comida e objetos de consumo como sapatos velhos e tênis nas lixeiras. Contou-me um pouco de sua sofrida vida. Sem família, sem casa, passa as noites sobre a marquise de um antigo hospital. Embaixo do braço, dois jornais do dia. Estranhei muito o interesse pela leitura. Depois de alguns minutos começou a desabafar: “Eu não sou pobre. Sou um miserável, isso sim. Sou fruto da Revolução, aqui em Santa Clara comandada pelo Che Guevara, um “hombre de mierda”. Iludi-me com a Revolução e logo vi que não sairia dessa. Na minha juventude, era encarregado de distribuir panfletos contra o governo. Logo fui preso e passei três anos na cadeia. Minha profissão é de sapateiro, mas como não tenho casa, nem família, vivo nas ruas. Uma das minhas fontes de renda é consertar tênis e sapatos velhos que acho nas lixeiras, para depois revendê-los na bairro El Condado (o mais pobre de Santa Clara). Ganho por cada tênis ou sapato 25 pesos (um dólar). Com isso, compro pão todos os dias, pela manhã. O pão redondo custa 1 centavo de peso. Já para o almoço, frequento um dos comedores existentes na cidade, seja do governo ou de instituições religiosas”. Somente na cidade de Santa Clara são em torno de 250 pessoas que frequentam, de segunda a sexta, os restaurantes de pobres. Em Havana, informou Henrique,  são milhares de pessoas que almoçam todos os dias nos restaurantes de pobres. Em Manzanillo, em torno de 240 pessoas nos sete comedores patrocinados pela Igreja Católica.
Detalhes da costura

Surpresas atrás de surpresas. Mas não me contentei com o que disse. Perguntei sobre o modo de vida implantado em Cuba e ele respondeu com uma frase apenas: “é uma desumanidade”. Explicou que agora com a permissão para abrir pequenos negócios como venda de sucos, pastéis, frutas, quem sai ganhando é o governo que cobra impostos caros pela mini-empresa. Por isso ele não pode abrir uma sapataria, pois seria inviável. Além disso, como vive na rua não tem teto e por isso não tem direito à libreta de alimentação para adquirir produtos mais baratos. Sua maior alegria é no tempo do carnaval: “Todo mundo me dá comida e eu roubo os copos de plástico enquanto as pessoas dançam. No carnaval faço um estoque grande de copos descartáveis, lavo-os e depois vendo para as pessoas do meu bairro.” E abrindo seu saco, mostrou-me pelo menos uma dúzia de copos. Esta venda também tem explicação porque no comércio há um desabastecimento de alguns produtos, dentre os quais copos de vidro. Numa cidade chamada Madruga, perto de Matanzas, em uma família que nos recebeu, a senhora ao servir um cafezinho, desculpou-se por ter apenas um copo de vidro. O meu companheiro usou um copo de plástico. A explicação está na falta de copos de vidro no mercado.
Um catador de lixo

Ao ser perguntado sobre os jornais que tinha embaixo do braço, novamente surpreendeu-me mostrando o jornal Granma e o Juventud Rebelde. Revelou que compra por 1 peso e revende por 3, depois de inteirar-se de todas as notícias. E disse: “hoje tem notícias sobre o Brasil, pois o Putin (presidente russo) passou pelo Brasil, Chile e Argentina para a compra de alimentos, já que não deseja mais adquirir no mercado europeu. A mim ninguém me engana. Leio todas as notícias e estou inteirado de tudo o que acontece em nosso país” - disse com toda a calma do mundo. E Che Guevara? - perguntei. “Foi um comandante bom para quem estava perto dele, mas mau com os ativistas e adversários. Mandou fuzilar muita gente, inclusive um amigo meu. Foi guerrear na Angola, Congo e Bolívia. Ali se deu mal e o mataram. Era muito idealista e muitas vezes ingênuo. Queria repetir o sucesso da Revolução cubana em outros países, e deu no que deu”. E me perguntou: “Já viste o memorial do Che?” Casualmente tinha ido conhecer o grande memorial, em Santa Clara onde estão depositados os restos mortais do guerrilheiro. Enquanto conversávamos, Henrique continuava a costurar seu tênis. Em nossa frente, outro miserável remexia o latão de lixo, à procura de sua subsistência. Já a famosa Madre de Calcutá venceu em Cuba, pois suas irmãzinhas de azul e branco estão trabalhando em várias cidades junto aos pobres de Fidel. Mais um mito que caiu.
Monumento a  Che Guevara



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

El Viejo: o soldado de Fidel Castro

Ele se chama Israel Fernandez Jimenez, de apelido El Viejo, 83 anos, cubano, guarda noturno da praça em frente à igreja São José, em Manzanillo, Cuba. Pai de quatro filhos, tenente coronel do Exército Rebelde e fã número um de Fidel Castro. Este é o perfil de um idoso que vigia à noite a praça para que a juventude não use drogas nem faça arruaças. Sua convicção e de que Cuba é o melhor dos países do mundo para se viver, pois “aqui há igualdade entre as pessoas”.
Estamos diante de um homem que lutou toda a vida por um ideal que foi o da revolução cubana.
Nascido em Birán, terra natal de Fidel Castro, conheceu de perto toda a família do Comandante,
inclusive era amigo de Raul Castro. “Eu, o Raul e o Fidel fomos amigos na juventude. Fidel era bem
mais velho que eu e eu o admirava pelas suas idéias. Sempre fui fiel a ele”

El Viejo com seu charuto cubano
 O nosso entrevistado, entre baforadas do seu
charuto cubano, começou a contar um pouco de sua vida: “Fui soldado do chamado Exército Rebelde, criado por Camilo Cienfuegos, um dos três maiores comandantes que vi na minha vida. Participei da invasão do quartel Moncada em Santiago de Cuba e aí fomos derrotados e presos. Depois fomos anistiados. Logo me incorporei ao exército do Comandante Almeida, depois de sua vinda do México junto com Fidel Castro. Participei das escaramuças da Sierra Maestra e ali junto com Fidel, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, saímos para a libertação de Cuba do ditador Batista. Na época, uma das minhas funções era roubar cabos de linhas telegráficas e roubar e matar guardas do ditador. Nossa tática era chegar por trás de um guarda e com um pedaço de aro de bicicleta atingir suas costas e gritar: manos arriba ( mãos ao alto). Depois roubava suas armas e muitas vezes, matávamos o soldado. Por 11 vezes, subi a a Sierra Maestra, levando numa mochila com alimentos e armas e ali ficava acampado com Fidel e os outros companheiros. Ali o Comandante Almeida um dos chefes do Exército Rebelde preparou seu pequeno exército e dali saímos para conquistar Bahyamo e Santa Clara, junto com  Che Guevara. Dali partimos para Havana onde conquistamos o poder e afugentamos o ditador Batista” O velho Israel ao falar de seu passado, punha-se de pé como se fosse um soldado em marcha e seu ardor o obrigava a levantar a voz todas as vezes que nomeava seu comandante, o Almeida.
El viejo, na sua casinha

Passados dois anos da Revolução, El Viejo foi encarregado de consertar pequenos aviões de
combate, tornado-se mecânico. Foi condecorado várias vezes e no Mausoléu de Che Guevara, em
Santa Clara, ali está seu nome gravado no mármore, o tal El Viejo é ele próprio e disso orgulha-se.
Para falar de seus filhos, el Viejo emociona-se e diz sentir saudade dos quatro filhos: três
mulheres e um varão. Duas delas, a Sônia e Angelita vivem no Brasil, na cidade de Belo Horizonte, participando da “Misión” dos médicos  cubanos. A terceira filha vive na Rússia como médica em um barco que industrializa pescado. O filho é advogado na cidade de Santa Clara. Sua maior paixão são seus dois netos. Perguntado sobre o porque de sua profissão atual de guarda noturno disse que
 durante muitos anos como soldado do Exército Rebelde sempre trabalhou à noite e dormia de dia. Hoje continua neste seu horário e fica acordado toda a noite. Ganha 400 pesos por mês (cerca de 18 dólares).Seu salário como tenente coronel é de 900 pesos (cerca de 37 dólares). “Não posso me queixar da vida. O amigo Fidel me deu um carrito ( lada soviético) e uma casa de dois pisos. Uma vez por ano vou a umquartel para treinar e conhecer novas armas. Se preciso for, novamente estarei à disposição do meu Comandante”. O ex-soldado recebe, ainda uma mesada que as filhas médicas em Belo Horizonte enviam,bem como presentes. “Sou um homem feliz e para mim sobra dinheiro no final do mês. Não bebo, gasto o suficiente para comer e por isso o dinheiro é um luxo”.

Entre uma baforada e outra do seu imenso charuto, ainda prometeu comprar um livro sobre a vida do Comandante Camilo Cienfuegos e na página 83, aparece seu nome com suas proezas como soldado. El Viejo despediu-se servindo um cafezinho, torrado por ele mesmo. Era intragável, mas bebi em nome da nossa amizade.