domingo, 28 de setembro de 2014

Como fugir de Cuba?



As constantes fugas de cubanos, através de frágeis balsas artesanais, continuam. Ainda na semana passada, a imprensa noticiou que oito cubanos chegaram à costa americana com uma balsa cujo motor era de um trator soviético.
Vou relatar o caso do qual participei, relativo a uma trágica fuga. Foi no dia 1° de setembro. Eu estava chegando em Manzanillo, uma cidade litorânea de Cuba, no lado oriental, com 130 mil habitantes. De repente, um jovem se aproxima do grupo com quem eu estava e comunica: “as autoridades do México revelaram que uma balsa, saída de Manzanillo foi salva pela guarda costeira, depois que essa foi avisada por um navio cargueiro, de que uma embarcação estava à deriva. Sabe-se que, dos 32 ocupantes, apenas 15 se salvaram depois de 24 dias à deriva”
Os sobreviventes de Manzanillo ainda no  barco

 Foi como uma bomba para aquela pequena cidade. As famílias dos que fugiram ficaram apavoradas. Estariam os familiares entre os mortos?  Foram dois dias de angústia e desesperança aguardando mais notícias. Acompanhei a dor de parentes e amigos. Um deles me disse que dois colegas de trabalho, em uma loja de calçados, haviam desaparecido, o que fazia supor que estivessem entre os que empreenderam a fuga. Dias depois veio a confirmação de que os dois estavam entre os sobreviventes.

Na cidade, aos poucos, as famílias começaram a saber notícias pelo telefone e pelo envio de reportagens publicadas nos jornais do  México. Os sobreviventes relataram que no dia 7 de agosto, 32 cubanos, na maioria jovens, depois de meses de preparação, saíram às escondidas das praias de Manzanillo, em um frágil barco construído com um motor de caminhão, munidos apenas de algumas de câmaras de ar de caminhão e de alimentos. Pelo trajeto normal, a balsa iria até as ilhas Caimãn e dali para Honduras ou México. Este é o destino da maioria dos fugitivos. Em Caimãn, a balsa seria abastecida e seguiria viagem. Em dois a três dias, chegariam ao continente. Mas o destino foi cruel com esses 32 cubanos. Nos primeiros quilômetros da viagem, o motor parou de funcionar. Oito cubanos decidiram voltar a nado, porém não chegaram à praia. Morreram afogados. Restaram 24. Estes ficaram vagando pelo oceano por 24 dias. Sem GPS e sem prática de se guiarem pelas estrelas à noite, ficaram a deriva até serem avistados por um barco pesqueiro que avisou a Marinha mexicana e esta os resgatou. Dos 24 cubanos estavam apenas 17 a bordo, mas dois já estavam mortos e  seus corpos ainda não tinham sido jogados no mar. Era um jovem de 16 anos e um homem de 30 anos. Os relatos dos que se salvaram são horripilantes. Para tentar salvar uma mulher grávida de seis meses, os ocupantes do barco chegaram a cortar seus pulsos para dar sangue à grávida.
Um dos mortos sendo recolhido

Os sobreviventes dessa catástrofe estão presos no México. Ainda estão aguardando a possibilidade de seguir viagem à Flórida, se tiverem sorte e dinheiro. Isto porque há um acordo entre México e Cuba para devolução dos que chegam à costa do México, mas conforme o valor de propina dada às autoridades mexicanas, podem ser liberados. A corrupção tem facilitado, para muitos, a entrada nos Estados Unidos.
Assim, continua a aflição das famílias que não sabem se o ente querido vai para os EUA ou voltará para Cuba onde ficaria preso por alguns anos.
Manzanillo está cansada de chorar seus mortos, pois é uma cidade pequena onde a maioria das pessoas se conhece.  Por ser uma cidade costeira, dali parte a maioria dos aventureiros, rumo ao ocidente. Não há ninguém na cidade que não tenha um ente querido nas listas dos mortos em fugas: ora é um filho, neto,  primo, prima  ou amigo.
Vivenciar a dor da comunidade, à medida que chegavam notícias sobre o episódio, obtidas pelas raras pessoas que têm acesso a internet, foi muito triste para mim, mas na verdade era apenas mais uma história das milhares existentes, sobre a fuga de cubanos do “paraíso” de Fidel Castro, rumo aos Estados Unidos.
Esta fuga pelo sistema de balsas aumentou nos últimos anos e seguidamente há notícias da chegada de sobreviventes aos Estados Unidos. Nessa semana em que estive em Manzanillo, outras três balsas foram bem sucedidas em suas viagens.
 Aos poucos, fiquei sabendo que já somam 35 mil os fugitivos que tiveram êxito em chegar aos Estados Unidos, utilizando balsas artesanais. O país fornece imediatamente o visto americano aos imigrantes e a Florida é o Estado americano preferido para viverem. Ninguém sabe quantos já morreram na travessia. Estima-se que uma balsa, a cada três que se evadem, chega à costa americana.
Os felizardas salvos usando um caminhão

Em abril passado, uma histórica travessia foi feita por 22 pessoas: a balsa foi construída tendo por base, grandes tonéis e sobre eles, um caminhão com carroceria. Um toldo foi colocado em cima para o abrigo do sol. Em apenas 20 horas, o grupo chegou aos Estados Unidos.
No total, desde 1959, já fugiram em torno de 2 milhões de cubanos. Em 1995, Fidel Castro disse que quem quisesse ir-se de Cuba, que se fosse. Ocorreu que135 mil pessoas saíram. Depois disso, o governo endureceu e agora pune os que são devolvidos. Anualmente outras 45 mil pessoas saem de Cuba, de forma legal, para países como Estados Unidos e Espanha. Mas que país é esse onde o sonho de qualquer jovem é sair de sua pátria? A verdade é dura, pois todos lutam para apenas sobreviver. Ali não existe futuro, nem esperança de uma mudança rápida que traga bem estar para a população.

           



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Carroça, puxada por cavalo é ainda meio de transporte de passageiros em Cuba

A Cuba que eu vi (3)

            A Cuba de hoje reserva muitas surpresas. Uma delas é a precariedade do transporte de passageiros dentro das cidades e entre elas. A realidade de hoje em Cuba me faz reviver minha infância, 60 anos atrás, quando ainda se usava o transporte de pessoas em carroças adaptadas, principalmente os que moravam no interior, para irem à missa aos domingos. Essa é uma das principais modalidades de transporte público em cidades cubanas. Carroças com capacidade para transporte de seis a oito pessoas circulam na maioria das cidades, principalmente no Centro e no Oriente do país. Em cidades como Santa Clara, Camaguey, Holgin, Bayamo e Santiago, o uso da tração animal é uma realidade.
As bicitáxis

  O transporte de passageiros é um grande problema para Cuba e está sendo resolvido pela iniciativa privada, pois o governo não tem dinheiro para colocar uma frota de ônibus suficiente para a demanda. Então, entra em ação a criatividade dos cubanos, que conseguiram assegurar algumas alternativas em meios de transporte. 
          Vejamos: 
*Bicitáxi - uma bicicleta adaptada com mais uma roda e com dois assentos atrás do condutor; 
*Mototáxi - com adaptação variada para duas ou três pessoas (tem inclusive um toldo para os passageiros se abrigarem do sol ou da chuva); 
A cocotáxi

*Cocotáxi - uma moto adaptada com uma carroceria em forma de coco. (estão principalmente em Havana e são muito cômodas);
O táxi dos anos 50

 *Táxi - com automóveis dos anos 50 a 60, de marcas conhecidas como Chevrolet 51, Mercury, Dodge, Plymouth e carros soviéticos como o Lada e o Moscozichs. São automóveis movidos a diesel, com motor adaptado, pois não existem carros a gasolina. Existem também camionetas e até tratores que puxam carrocerias de ônibus. Para os turistas a táxis modernos em frente aos hotéis cinco estrelas.
Congestionamento de carroças

 *Carroças- o meio mais popular são as carroças puxadas por cavalos. São adaptadas com bancos de madeira, levando em torno de 8 pessoas. É um transporte muito comum, principalmente nas cidades planas, onde não há aclives e declives acentuados. Em cidades do centro e do oriente do país ocorrem até congestionamentos de carroças, pois elas estão em todas as ruas. A média do preço, por pessoa, é em torno de 5 pesos (50 centavos do real). Para amenizar a sujeira das fezes dos cavalos nas ruas, é usado um saco de estopa no traseiro do animal. 
Existem também micro-ônibus, em pequena quantidade, chamados de “guagua” e os ônibus comuns, que também são raros, todos importados da China. A carência de ônibus em Cuba é ocasionada pela absoluta falta de recursos para implantar uma frota razoável. Além disso, há falta de combustível. Cuba depende totalmente do petróleo venezuelano, a preços subsidiados. Para carros particulares, que muito pouca gente tem, o combustível também é vendido pelo sistema de quotas, em torno de 30 litros/mês para cada família.
Transporte por caminhões

 *Caminhão- Entre as cidades, o meio de transporte de passageiros mais comum é o caminhão. As carrocerias são adaptadas, com quatro fileiras de tábuas e uma entrada para acesso. Viaja-se sentado, agarrado às tábuas ou às ferragens do toldo. É totalmente desconfortável. Cada caminhão leva em torno de 30 pessoas. Os caminhões circulam por todo país. Em Bahiamo, no Oriente, vi um caminhão, prestes a viajar para Havana, a cerca de 800 km, lotado de passageiros. O tempo de viagem seria em torno de 12 a 14 horas. Um verdadeiro absurdo! O governo está preocupado com o número de acidentes. De janeiro a maio deste ano, houve 2322 acidentes com 133 mortos. É um transporte totalmente inseguro. Por fim, existe ainda o trem, dos anos 50, e a empresa aérea cubana.
Os coches (carroças)

* Turistas - Para os turistas e para os que podem pagar em divisas, o governo disponibilizou duas empresas, a Via Azul e a Astro, que possuem ônibus com ar condicionado, de origem chinesa. Uma viagem entre Havana e Santiago (960 km) atravessando toda a ilha custa 50 dólares, com 12 horas de duração. Um detalhe: para usar o banheiro dentro do ônibus é necessário chamar o auxiliar do motorista. Este abre o banheiro chaveado e fica esperando a saída. Por razões de segurança, apenas. Já pensou?
Transporte por camioneta

            Desde o ano passado, o Comandante Raul Castro autorizou a venda de carros novos. Um Peugeot, por exemplo, custa 91 mil dólares. Os preços são absurdos devido aos altos impostos e inviabilizaram a sua venda . Nos primeiros seis meses de venda livre, foram vendidos apenas 50 automóveis novos em toda Cuba. Um cidadão que ganha 600 pesos por mês precisaria trabalhar toda a vida e assim mesmo não alcançaria ver seu sonho de carro novo realizado. 
              Em termos de meios de transporte, isso foi o que vi nas onze cidades maiores que conheci.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Povo cubano sofre com o desabastecimento


Um dos problemas que enfrentei em Cuba foi a falta de alguns produtos básicos nas lojas, mesmo onde se pode comprar com CUCs. Explico. Existem duas moedas em circulação em Cuba: o peso cubano e o peso em divisas, chamado CUC, que praticamente equivale ao dólar. Um CUC é igual a 24 pesos. Os salários são pagos em pesos e eles servem para a população adquirir os produtos a preços subsidiados em lojas do governo ou privadas. Existem lojas que só vendem em CUCs e têm produtos mais diversificados. Isto significa que, quem tem dinheiro pode comprar nessas lojas.
Interior de uma farmácia

Visitando as famílias e sentindo que tinham privações de vários produtos necessários em suas casas, interessei-me em saber sobre como funciona o abastecimento nesse país. Em primeiro lugar aprendi a importância da “libreta” de produtos de alimentação. Cada família possui uma libreta para compra, em pesos cubanos, em armazéns próprios do governo. Não é uma compra livre, pois os tipos e as quantidades são determinadas pelo governo, de acordo com o número de membros da família. Por isso, poder-se-ia dizer que “nenhum cubano passa fome”, já que todos recebem estes alimentos. Antigamente essa quota de alimentos básicos era mais variada e calculada para o mês inteiro, mas hoje, na verdade, contempla poucos produtos que só duram em torno de 12 a 13 dias. Para o restante dos dias, a família deverá “se virar” como todos dizem. Pela Libreta, a família compra de acordo com o número de pessoas da família. Tudo é medido em libras. Uma libra equivale a 453 gramas. Assim, para uma família de seis pessoas, conforme foto, a família recebe de arroz 15 lb, ou seja, 6,80 kg; grãos: 30 lb ou 13,60 kg; azeite: l litro; açúcar refinado: 3lb ou 1,60 kg; açúcar comum: 9 lb ou 4, 82 kg; sal: 1 lb ou 453 gramas; café: 3 lb ou 1,36 kg.
Capa de uma libreta

Dados de setembro de 2014
O problema é que o cubano tem de comprar outros produtos essenciais, em CUC, nas lojas estatais como a TRD Caribe e a Cimex. Por isso, o pai ou mãe de família, a cada mês, precisa fazer uma matemática difícil para que todos se alimentem adequadamente e tenham o necessário. Muitas famílias recebem dinheiro enviado por parentes no exterior e “fazem algum bico” ou vendem algum produto que fabricam para conseguir alguns CUCs.Há anos, há uma desorganização no abastecimento de produtos como sabão, sabonete, shampus, desodorantes, aparelhos de barba, colônias, desengraxantes, cremes capilares, hidratantes, tintas para cabelo, esmaltes de unhas e toda a espécie de perfumarias. O jornal Granma, órgão oficial do governo, no dia 4 de agosto de 2014, destacou uma matéria falando sobre o chamado “desabastecimento cíclico”, ou seja periodicamente faltam produtos essenciais para asseio e limpeza. As explicações dizem que há um descompasso entre o consumo e a produção industrial. Ano após ano, diminui a produção e o governo é obrigado a importar produtos a preços maiores. Os próprios órgãos do governo admitem as dificuldades, por causa da crise financeira do país e pelo absoluto sucateamento das indústrias que, a cada ano, produzem menos. A diretora de Vendas e Registro de Consumidores, Sara del Pilar Pilar, do Ministério de Indústria e de Comércio Interior, no dia 22 de agosto de 2014, no jornal Granma afirmou que “não era justificável a ausência e a instabilidade de fósforos na rede comercial, pois constitui uma negligência dos funcionários das empresas de Comércio que não garantiram a presença estável deste produto”. Com relação à falta de batata doce, disse Sara, que a produção de 2014 foi de 65 mil e 700 toneladas, que comparada a de 2013, diminuiu 48 toneladas. “Estas cifras mostram que apesar de todas as medidas administrativas e estratégias de distribuição adotadas, a produção da batata doce, tão comum na cozinha cubana, impossibilita satisfazer a demanda da população”. Com relação à falta de sal, disse a dirigente: “não tem justificativa para que ocorra desabastecimento de sal, pois não é observada a cadeia do produtor, do distribuidor por atacado e varejo, e não se cumpre o que é exigido pelas cláusulas contratuais”.
                 São apenas alguns fatos que explicam o descompasso da economia cubana para o abastecimento da população. Disse-me uma dona de casa, que este desabastecimento de produtos é uma realidade de muitos anos e a cada ano se agrava. Por isso, quando a população fica sabendo que um determinado produto chegou a uma loja, todos correm para comprar.
A bicicleta, meio de transporte de mercadorias
Tive experiências concretas em relação à falta de produtos básicos como o papel higiênico e lâminas de barbear. Verifiquei em banheiros de duas casas que visitei, o uso de papel jornal ou de páginas das listas de telefone que servem de papel higiênico. Isto aconteceu na cidade de Bayamo. Por encomenda de um amigo, levei dezenas de barbeadores G3 do Brasil, pois há muitos meses ele não consegue comprá-los lá. Esta situação fez-me lembrar da realidade da vida de Moscou, há 24 anos atrás, quando houve a implosão do comunismo, com o presidente da Perestroika, Mikhail Gorbachev. Cuba está passando pelo mesmo desabastecimento que ocorreu na ex-União-Soviética.

domingo, 21 de setembro de 2014

CUBA O PAÍS DE GRANDES CONTRASTES



Você sabe o que é protelar um sonho por vinte anos? Pois isso ocorreu comigo. Meu sonho era conhecer Cuba, aquela pequena ilha do Caribe, da tanto se ouve falar. No carnaval de 1994, comprei as passagens e um dia andando na Rua da Praia, em Porto Alegre, em pleno meio dia, em frente às Lojas Americanas, fui assaltado por dois pivetes. Como resultado, machuquei duas vértebras cervicais e fiquei de molho por três meses. Consequentemente, suspendi minha viagem ao chamado paraíso do Caribe. Agora, vinte anos depois, realizei meu sonho e por 16 dias, percorri a ilha toda, de Havana a Santiago de Cuba, passando por 11 cidades. Meu desejo era conhecer  a Cuba verdadeira, falar com os moradores, observar seu modo de vida, seus anseios, seus sofrimentos e principalmente seus sonhos. Por isso, propositalmente, deixei a Praia de Varadero fora do roteiro e embrenhei-me por cidades, como Havana, Madruga, Santa Clara, Manicarágua, Camaguey, Holgin, Bayamo, Manzanillo, Jara, Santiago e El Cobre. Quis conhecer o resultado de uma Revolução que aconteceu há 53 anos atrás, cujos ditadores como Fidel Castro e Raul Castro prometeram tornar Cuba, um paraíso de bem-estar e conforto, de trabalho e prosperidade. Será que conseguiram?
Cuba tem forma de jacaré

Vou expressar aqui neste blog o que senti ao transitar por aquele país, falando com diversas pessoas, vendo as dificuldades do transporte de massa, os campos agricultáveis vazios, as usinas de açúcar sucateadas e cidades inteiras à espera de reformas em suas casas e edifícios, onde as pessoas vivem em verdadeiros cortiços. Também percorri as periferias das cidades, onde moram os miseráveis, pois pobres temos em quase todas as residências.
Aos poucos, foram se confirmando minhas convicções, de que passados 53 anos, desde o início da Revolução, o país chamado Cuba está agonizando, longe de obter soluções econômicas para seu povo sofrido. Um país adormecido cuja palavra esperança já não existe, apesar dos out-doors convocando o povo a ter ânimo e confiança na Revolução. São out-doors espalhados por toda Cuba. Um país de imensos contrastes e de inúmeras facetas a descobrir. Também vi de perto, as dificuldades das religiões atuarem, pois a principal religião, a católica ainda hoje sofre perseguição, depois de ter perdido quase todos os seus templos e todos os colégios e asilos, que foram encampados pela Revolução.

Por todo o país outdoors conclamam para a Revolução
 Seria injusto se apenas visse o lado negativo de Cuba. O que eles tem de melhor é um povo muito parecido com o brasileiro do nordeste. Um povo cordial, generoso, solidário, valente e hospitaleiro.  Destaco também como sucesso, a educação, o ensino gratuito que vai desde o jardim de infância até a Universidade, a ponto do Banco Mundial  afirmar que Cuba tem o melhor sistema educativo da América Latina. Dá gosto ver as crianças, acompanhadas pelas mães indo para a escola às 7,30 da manhã, Todos os escolares são uniformizados. O índice de analfabetismo é zero. Nota dez para este item que é um dos mais importantes Outro fator de sucesso são o indicadores de saúde, com pesquisadores de renome internacional. Em Cuba, a saúde pública é prioridade, haja vista que em cada quadra, praticamente há um posto de saúde, com o médico e enfermeira de família. Lá foram erradicadas doenças tradicionais, porém nos últimos meses, apareceram doenças que estão sendo tratadas como a cólera e a dengue. Tais itens vamos abordar com alguns detalhes nas próximas matérias.
Também seria injusto se deixasse de mencionar as lindas praias de Cuba, verdadeiras jóias de prazer, que atraem cerca de dois milhões de turistas por ano. Somente a principal praia, a de Varadero  possui 80 hoteis  de categoria internacional, com várias estrelas, que atraem principalmente turistas canadenses e norte-americanos.  O turismo é a segunda maior fonte de renda do país.
A catedral de Havana, ponto turístico

Mas aí vem a pergunta: por que esta ilha que possui 11 milhões de habitantes e considerada o paraíso do Caribe está vendo seus filhos fugirem para outros países? Por que, desde o começo da Revolução já saíram dois milhões de cubanos? Por que cerca de 40 mil cubanos emigram para outros países, todos os anos? Por que ainda hoje cubanos desesperados deixam a ilha em balsas artesanais, enfrentando a morte a cada remada? Certamente há muita coisa errada nesta ilha, que teima em continuar com seu regime socialista comunista, um dos poucos no mundo.
Em  Santiago, muitos prédios públicos foram recuperados


Neste blog vamos abordar alguns assuntos que mais me chamaram atenção, como  os meios de transporte nas cidades que ainda hoje usam carroça e cavalos, o transporte de passageiros através de caminhões, a flexibilização do governo em conceder permissão para abrir pequenas empresas, as estradas pelo interior da ilha, o programa “Misión” dos médicos, o desabastecimento, o mercado negro, a libreta de compras do dia a dia, as Damas de Blanco, os dissidentes que fazem  protestos, a restituição de igrejas, a fuga de cubanos por balsas, os miseráveis sem teto e até uma entrevista com um ex-soldado  e companheiro de infância de Fidel Castro. Aguarde. Cada reportagem uma surpresa.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A visita apressada aos lugares sagrados na Terra Santa


 Israel recebe mais de 3,5 milhões de peregrinos todos os anos. Comparando com o Rio de Janeiro, que recebe 2 milhões de turistas por ano, vemos como o turismo é importante para a economia desse país.
Igreja do Monte das Bem-Aventuranças, Galileia

Normalmente o peregrino vem a Israel em uma excursão por uma semana já tendo visitado outros países antes, em geral Itália, Turquia ou Egito e aqui, deseja visitar os lugares santos. Como são inúmeros, é impossível visitar todos, então os organizadores das excursões selecionam os locais considerados principais e proporcionam uma visita rápida a cada um deles. Acompanhei uma dessas excursões de brasileiros que queriam fotografar tudo e pouco escutavam as palavras do guia, que explicava brevemente e já os chamava em direção ao próximo local.
A Domo Rocha, muçulmana

Três são os lugares preferidos: em Jerusalém, é o Santo Sepulcro, onde Jesus morreu e ressuscitou, incluindo o Monte Calvário; em Belém é a Igreja da Natividade, onde Jesus nasceu e em Nazaré, a Igreja da Anunciação, onde  para  Maria foi anunciado que ela seria a mãe do Messias .
Nazaré onde Jesus viveu 30 anos

Para quem dispõe de mais tempo, existem muitos outros locais interessantíssimos para visitar.
Em Jerusalém, o peregrino pode visitar ainda a Igreja da Flagelação, o Litóstroto onde Jesus foi flagelado, a Via Dolorosa, o Cenáculo da Última Ceia, a Igreja da Dormição de Maria, a Igreja Santa Ana onde está a Piscina de Betsaida em que Jesus curou um paralítico, a Piscina de Siloé entre outros.
Também é possível ir ao Muro das Lamentações dos judeus, ao Domo da Rocha dos muçulmanos, ao túmulo do Rei David, aos túneis, etc.
Fora dos muros fica o Monte das Oliveiras, onde Jesus foi preso. Ali ergue-se a bonita Igreja da Agonia. Ao lado da igreja, o Getsemani com oliveiras de mais de 1000 anos que ainda produzem. Pode-se ainda visitar a Igreja de Maria Madalena, a Igreja Dominus Flevit onde Jesus chorou por Jerusalém, a Igreja Pater Noster, onde Jesus ensinou o Pai Nosso. Ali está em mosaico o Pai-Nosso em português, com a oração toda errada, parecendo mais espanhol. Uma aberração. Tem ainda a Igreja da Ascensão de Jesus no Monte das Oliveiras, a então Betfagé e a Vila Betânia, onde vivia Lázaro, o amigo de Jesus.
Igreja Santo Sepulcro, Jerusalém
 
O peregrino pode ainda percorrer a Galileia, onde Jesus viveu e pregou ao redor do Lago Genezaré. Ele terá então que visitar Magdala, terra de Maria Madalena, Monte das Bem-Aventuranças, Cafarnaum, Corazim, Monte Tabor, Nazaré, Caná, Naim, Monte Carmelo, etc. etc.
O Pai -Nosso com erros de português

Assim, é humanamente impossível visitar tudo em uma semana. São muitas as cidades e locais como: o lugar do batismo de Jesus no Rio Jordão, o Poço de Jacó na Samaria, Hebron, Banias, Betsaida e outros que ficam de fora do roteiro da maioria das excursões.
Entrada baixa da Basílica em Belém

O importante é que o peregrino sai emocionado com o que viu e sua fé desperta neste chamado Quinto Evangelho que é a Terra Santa.

Com esta matéria, encerro as observações de Israel. Amanhã, sexta-feira, partirei para o Brasil. Obrigado pelo interesse. Espero ter colaborado para aumentar nossa visão destes lugares sagrados para cristãos, muçulmanos e judeus. Até breve.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Poço de Jacó em meio aos palestinos pobres



 Hoje escrevo uma matéria especial, ao mesmo tempo sentimental e saudosa. Vou contar a história: há cerca de 40 anos atrás, em Porto Alegre, dez casais, pertencentes ao Movimento de Casais Jovens, resolveram criar um grupo com o objetivo de ir até o Poço de Jacó, em Israel. Em outras palavras realizar uma viagem à Terra Santa. O grupo chamava-se Parceiros do Poço de Jacó. (PPJ). Mensalmente fazíamos um churrasco na casa de um dos participantes e cada casal depositava 50 dólares para a viagem. Passados alguns anos, já possuíamos uma quantidade grande de dinheiro para este objetivo. Alguns, no entanto, precisaram mudar os planos - os filhos foram chegando, o sonho da casa própria começou a concretizar-se, algumas doenças comuns nas famílias e alguns problemas financeiros. Foi o adeus ao sonho do Poço de Jacó. Cada um recolheu os dólares que possuía e os aplicou no que era prioritário. O grupo continuou confraternizando com os churrascos, de vez em quando. Foi uma frustração, mas, valeu porque a amizade construída nesta época é um tesouro que ainda possuímos.
O ´poço com 23 metros de profundidade

Hoje, passados 40 anos, estando em Israel, resolvi concretizar o sonho do PPJ e fui visitar o Poço de Jacó. Foi uma viagem difícil porque o local é território palestino e a nossa Van foi barrada na fronteira de Israel com a Palestina. Não sabemos o porquê. Demos volta e quando estávamos passando a aduana, os soldados se compadeceram e permitiram a nossa entrada.
A água é potável

Chegamos a um mundo totalmente diferente de Israel.
A Palestina é constituída por dois territórios separados: o território de Gaza e a Palestina encravada em Israel, junto à antiga Samaria, em meio aos montes desérticos. A área Palestina é a chamada “carne de garrão”, das piores em possibilidades agrícolas, pois é quase impossível produzir, a não ser em pequenas áreas, em terraços de pedra calcárea junto aos montes. As estradas estão em péssimas condições. A sujeira está em toda parte. Vimos um povo pobre vivendo de “bicos”, com poucas oportunidades de trabalho. Os palestinos são dependentes dos israelenses em quase tudo, pois a água e a energia são fornecidas por Israel. Não há uma solução, a curto prazo, para os problemas entre israelenses e palestinos. Como será possível criar um país independente, encravado em Israel e separado em duas áreas, uma longe da outra?
Provei da água

Na Palestina está a cidade árabe de Nablus, em meio aos montes Garizim e Ebal, a 80 km de Jerusalém. Ali, num mosteiro Greco-Ortodoxo, está o famoso Poço de Jacó. Tem esse nome porque foi o personagem bíblico Jacó que, há 3.500 anos, comprou a terra, fez o poço e o deu de presente para o filho José. O Poço tem hoje 23 metros de profundidade. No passado tinha 32 metros, mas foi diminuindo no decorrer dos séculos. A água é potável e todos podem beber num caneco de alumínio. Os peregrinos se empurram para bater fotos. Fica na cripta da igreja. O monte Garizim possuía um templo, onde os samaritanos (inimigos dos judeus) adoravam o seu Deus.
O poço tem mais de 3500 anos


Foi com emoção e saudade dos amigos que tomei um pouco daquela água que serviu de inspiração para a formação do grupo que até hoje cultiva esta amizade em 40 anos de convivência. Senti que eu, diante do Poço de Jacó, representava a todos e em nome deles cumpria nossa promessa de juventude.

As montanhas da Palestina

Estradas péssimas


Jerusalém, com sua história milenar, é a cidade dos mil contrastes


É muito confuso escrever sobre a cidade de Jerusalém porque sua história é tão rica que dificilmente abarcaríamos sua totalidade. Foi fundada pelo rei David há três mil anos e desde então foi palco de inúmeras guerras. Segundo os especialistas, Jerusalém foi sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes, recapturada 44 vezes e destruída duas vezes. A última vez foi no ano 70 dC, pelos romanos que arrasaram a cidade, destruindo e queimando tudo.
Uma das ruas estreitas de Jerusalém velha

Como eu poderia descrever tão rica história em poucas linhas? Impossível! Por isso, relato apenas impressões deste peregrino que visitou a cidade por cinco vezes.
Jerusalém, é dividida em duas. A antiga dentro dos muros construídos em 1538 pelo sultão otomano Solimão e a nova, situada ao redor da cidade velha, que se mostra pujante, moderna, com largas avenidas, metrô de superfície, túneis, viadutos, praças, museus e imensos edifícios que abrigam em torno de 800 mil habitantes. Não foi fácil construir a cidade nova, pois Jerusalém fica situada nas montanhas, a cerca de 800 metros acima do nível do mar. As montanhas ao redor foram dominadas pela mão do homem que construiu suas casas e apartamentos para os novos moradores, que vieram de todas as partes do mundo, a partir de sua fundação de Israel em 1948. Oficialmente, Jerusalém é considerada a capital do país, mas não para a ONU. As embaixadas estão em Tel Aviv que é a capital financeira. Em Jerusalém está o Parlamento, o Knesset e ali residem os ministros e todo o governo.
Igreja Santo Sepulcro, a maior

O coração da cidade é a velha Jerusalém, palco de tantas histórias, de derrotas e vitórias. Ali estão as bases das religiões cristã, judaica e muçulmana. As três religiões reivindicam para si a primazia do local. De 1948 até 1983, a cidade estava dividida em oriental e ocidental. Em 1983, Israel, que dominava a parte ocidental se apoderou da Jerusalém Oriental que pertencia à Jordânia. Desde então, a cidade foi dividida em quatro partes: dos judeus, dos muçulmanos, dos cristãos e dos armênios. O quarteirão dos judeus abriga o famoso Muro das Lamentações e as escavações do lado sul, dos tempos do Rei David. Possui também o túmulo do Rei David e uma quantidade muito grande, em torno de 40 túneis da cidade antiga. Um deles tem mais de 600 metros de comprimento e levava água de fora dos muros para a piscina de Siloé, local de curas feitas por Jesus. Os cristãos têm em sua área cerca 40 conventos e igrejas, destacando-se o Santo Sepulcro, cenário da paixão, morte, sepultamento e ressurreição de Jesus; a Via Dolorosa, com  suas 14 estações, passando pelas ruas estreitas que abrigam hoje muitas lojas; o Cenáculo da Última Ceia, entre outras igrejas como a da Flagelação. No quarteirão dos muçulmanos distingue-se a Domo da Rocha e a Mesquita de Al Aqsa. Tem também o bairro armênio que abriga várias igrejas.
A reza no Muro das Lamentações

 Andando pela cidade velha quase não se distingue os bairros e nas ruas estreitas, por onde não passam carros, existem milhares de lojinhas, que oferecem produtos aos peregrinos, tanto cristãos como judeus e muçulmanos. Ali se encontra toda sorte de presentes confeccionados em madeira de oliveiras e produtos “made in China”, como em qualquer outro lugar do mundo. A pechincha existe em todas as lojas. Vendem também roupas e comidas típicas árabes como a shawarma e o falafel, à base de carne e verduras, com aquele pão árabe redondo, que chamam de pitas. É o “fast food” dos árabes. No bairro muçulmano, vendedores oferecem verduras frescas na rua.
A Via Dolorosa tem 14 estações

A principal atração para os turistas é o Muro das Lamentações, onde qualquer pessoa pode rezar, tocar o muro de 70 metros de largura e deixar um bilhetinho com pedido a Deus. Para rezar, os homens ficam separados das mulheres por uma cerca. Fiquei ali por alguns minutos, invocando ao Deus dos judeus e dos cristãos, uma solução para os conflitos nesta Terra Santa, onde não existe paz duradoura.
Em primeiro plano, cemitério dos judeus. Ao fundo, a cidade velha

Para os cristãos, uma grande atração é o Santo Sepulcro, que recebe, diariamente, milhares de peregrinos. O edifício é compartilhado pela igreja católica, pelos gregos ortodoxos e pelos armênios ortodoxos, gerando muita confusão. A chave da Basílica está confiada a uma família muçulmana que abre e fecha a igreja todos os dias. A impressão que se tem, entrando na igreja, é de grande balbúrdia, pois os peregrinos formam imensas filas para visitar o local do sepultamento e o empurra-empurra dificulta a concentração.
Um pé de oliveira de mais de 1000 anos

Fora dos muros, a seis kms, situa-se a cidade de Belém, local do nascimento de Jesus e o Monte das Oliveiras, onde Jesus foi preso. Ali, a principal Basílica é  a da Agonia de Cristo. O frei franciscano Darcísio Hobaert, gaúcho de Crissiumal, trabalha ali e se considera guardião das oliveiras. Ele revelou-me que, diariamente, visitam a Basílica mais de 10 mil pessoas. Ali estão as famosas árvores do Jardim das Oliveiras com mais de 1000 anos de existência.
O grande problema para a Igreja Católica é a ausência de cristãos residindo na Terra Santa, principalmente em Jerusalém, onde predominam os judeus e os muçulmanos. O mesmo ocorre em Nazaré e Belém, onde predominam os árabes muçulmanos.
Igreja da Agonia, no Monte das Oliveiras


Jerusalém segue sendo uma cidade indivisível, que sempre será dos judeus, como eles afirmam. Por ela, este povo dará a vida, se for necessário. Disso, não tenho dúvidas.